21/07/2016

[A Mulher Selvagem] Cantando sobre os ossos #2.

(fotografia por Bleeblu & Moon)

Nova série de posts dividida em 6 partes (cantando sobre os ossos), sobre o arquétipo da mulher selvagem, do livro "Mulheres que correm com os lobos, mitos e histórias do arquétipo da Mulher Selvagem", escrito pela psicóloga e contadora de histórias Clarissa Pinkola Estés.
Para ler a primeira parte, clique aqui.


O arquétipo da Mulher Selvagem envolve o ser alfa matrilinear. Há ocasiões em que vivenciamos sua presença, mesmo que transitoriamente, e ficamos loucas de vontade de continuar. Para algumas mulheres, essa revitalizante "prova da natureza" ocorre durante a gravidez, durante a amamentação, durante o milagre das mudanças que surgem à medida que se educa um filho, durante os cuidados que dispensamos a um relacionamento amoroso, os mesmos que dispensaríamos a um jardim muito querido. Por meio da visão também temos uma percepção dela; através de cenas de rara beleza. Costumo sentir sua presença quando vejo o que no interior chamamos de pôr-do-sol divino. Senti que ela se mexeu dentro de mim quando vi os pescadores saindo do lago ao escurecer com as lanternas acesas e também quando vi os dedinhos dos pés do meu filho recém-nascido, todos enfileirados como grãos de milho doce na espiga. Nós a vemos sempre que a vemos, o que ocorre por toda a parte. Ela também chega a nós através dos sons; da música que faz vibrar o esterno eque anima o coração. Ela chega com o tambor, o assobio, o chamado e o grito. Ela vem com a palavra escrita e falada. Às vezes uma palavra, uma frase, um poema ou uma história soa tão bem, soa tão perfeito que faz com que nos lembremos, pelo menos por um instante, da substância da qual somos feitas e do lugar que é o nosso verdadeiro lar. Essas efêmeras "provas da natureza" vêm durante a mística da inspiração — ah, ela está aqui; ai, ela já se foi. O anseio por ela surge quando nos encontramos por acaso com alguém que manteve esse relacionamento selvagem. Ele brota quando percebemos que dedicamos pouquíssimo tempo à fogueira mística ou ao desejo de sonhar, um tempo ínfimo à nossa própria vida criativa, ao trabalho da nossa vida ou aos nossos verdadeiros amores. Contudo, são esses vislumbres fugazes, originados tanto da beleza quanto da perda, que nos deixam tão desoladas, tão agitadas, tão ansiosas que acabamos por seguir nossa natureza selvagem. É então que saltamos floresta adentro, em meio ao deserto ou à neve, e corremos muito, com nossos olhos varrendo o solo, nossos ouvidos em fina sintonia, procurando em cima e embaixo, em busca de uma pista, um resquício, um sinal de que ela ainda está viva, de que não perdemos nossa oportunidade. E, quando farejamos seu rastro, é natural que corramos muito para alcançá-la, que nos livremos da mesa de trabalho, dos relacionamentos, que esvaziemos nossa mente, viremos uma nova página, insistamos numa ruptura, desobedeçamos as regras, paremos o mundo, porque não vamos mais prosseguir sem ela. Uma vez que as mulheres a tenham perdido e a tenham recuperado, elas lutarão com garra para mantê-la, pois com ela suas vidas criativas florescem; seus relacionamentos adquirem significado, profundidade e saúde; seus ciclos de sexualidade, criatividade, trabalho e diversão são restabelecidos; elas deixam de ser alvos para as atividades predatórias dos outros; segundo as leis da natureza, elas têm igual direito a crescer e vicejar. Agora, seu cansaço do final do dia tem como origem o trabalho e esforços satisfatórios, não o fato de viverem enclausuradas num relacionamento, num emprego ou num estado de espírito pequenos demais. Elas sabem instintivamente quando as coisas devem morrer e quando devem viver; elas sabem como ir embora e como ficar. Quando as mulheres reafirmam seu relacionamento com a natureza selvagem, elas recebem o dom de dispor de uma observadora interna permanente, uma sábia,uma visionária, um oráculo, uma inspiradora, uma intuitiva, uma criadora, uma inventora e uma ouvinte que guia, sugere e estimula uma vida vibrante nos mundos interior e exterior. Quando as mulheres estão com a Mulher Selvagem, a realidade desse relacionamento transparece nelas.


(fotografia por Bleeblu & Moon)

Não importa o que aconteça, essa instrutora,mãe e mentora selvagem dá sustentação às suas vidas interior e exterior. Portanto, o termo selvagem neste contexto não é usado em seu atual sentido pejorativo de algo fora de controle, mas em seu sentido original, de viver uma vida natural, uma vida em que a criatura tenha uma integridade inata e limites saudáveis. Essas palavras, mulher e selvagem, fazem com que as mulheres se lembrem de quem são e do que representam. Elas criam uma imagem para descrever a força que sustenta todas as fêmeas. Elas encarnam uma força sem a qual as mulheres não podem viver. O arquétipo da Mulher Selvagem pode ser expresso em outros termos igualmente apropriados. Pode-se chamar essa poderosa natureza psicológica de natureza instintiva, mas a Mulher Selvagem é a força que está por trás dela. Pode-se chamá-la de psique natural, mas também o arquétipo da Mulher Selvagem se encontra por trás dela. Pode-se chamá-la de natureza básica e inata das mulheres. Pode-se chamá-la de natureza intrínseca, inerente às mulheres. Na poesia, ela poderia ser chamada de "Outra", "sete oceanos do universo", "bosques distantes" ou "A amiga". Na psicanálise, e a partir de perspectivas diversas, ela seria chamada de id, de Self, de natureza medial. Na biologia, ela seria chamada de natureza típica ou fundamental. No entanto, por ser tácita, presciente e visceral, entre as cantadoras ela é conhecida como a natureza sábia ou conhecedora. Ela é às vezes chamada de "mulher que mora no final do tempo" ou de "mulher que mora no fim do mundo". E essa criatura é sempre uma megera-criadora, uma deusa da morte, uma virgem decaída ou qualquer uma de uma série de outras personificações. Ela é amiga e mãe de todas as que se perderam, de todas as que precisam aprender, de todas as que têm um enigma para resolver, de todas as que estão lá fora na floresta ou no deserto, vagando e procurando. Na realidade, no inconsciente psicóide — a camada da qual a Mulher Selvagem emana — a Mulher Selvagem não tem nome, por ser tão vasta. Contudo, como ela cria todas as facetas importantes da feminilidade, aqui na terra recebe muitos nomes, não só para permitir que se examine a infinidade de aspectos da sua natureza mas também para que as pessoas se agarrem a ela. Como no início da restauração do nosso relacionamento com ela, a mulher selvagem pode se dissolver em fumaça a qualquer instante; ao lhe darmos um nome, estamos criando para ela um espaço de pensamento e sentimento dentro de nós.

(fotografia de Bleeblu, Moon, e Molly)

Assim, ela virá, e se for valorizada, permanecerá. Portanto, em espanhol ela poderia ser chamada de Rio Abajo Rio, o rio por baixo do rio; La Mujer Grande, a mulher grande; Luz dei abyss, luz do abismo. No México, ela é La Loba, a loba, e La Huesera, a mulher dos ossos. Em húngaro, ela échamada de Ö, Erdöben, Aquela dos Bosques, e Rozsomák, o carcaju. No idiomanavajo, ela é Na'ashjé'ii Asdzáá, a Mulher Aranha, que tece o destino dos humanos e dos animais, das plantas e das rochas. Na Guatemala, entre muitos outros nomes, ela é Humana dei Niebla, o Ser de Névoa, a mulher que vive desde sempre. Em japonês,ela é Amaterasu Omikami, a Força Espiritual, que gera toda a luz, toda a consciência.No Tibete, ela é chamada de Dakini a força da dança que produz a clarividência dentro das mulheres. A lista continua. E ela continua. A compreensão dessa natureza da Mulher Selvagem não é uma religião, mas uma prática. Trata-se de uma psicologia em seu sentido mais verdadeiro: psukhe/psych, alma; ology ou logos, um conhecimento da alma. Sem ela, as mulheres não têm ouvidos para ouvir o discurso da sua alma ou para registrar a melodia dos seus próprios ritmos interiores. Sem ela, a visão íntima das mulheres é impedida pela sombra de uma mão, e grande parte dos seus dias é passada num tédio paralisante ou então em pensamentos ilusórios. Sem ela, as mulheres perdem a segurança do apoio da sua alma. Sem ela, elas se esquecem do motivo pelo qual estão aqui; agarram-se às coisas quando seria melhor afastarem-se delas. Sem ela, elas exigem demais, de menos ou nada. Sem ela, elas se calam quando de fato estão ardendo. A Mulher Selvagem é seu instrumento regulador, seu coração, da mesma forma que o coração humano regula o corpo físico. Quando perdemos contato com a psique instintiva, vivemos num estado de destruição parcial, e as imagens e poderes que são naturais à mulher não têm condições de pleno desenvolvimento. Quando são cortados os vínculos de uma mulher com sua fonte de origem, ela fica esterilizada, e seus instintos e ciclos naturais são perdidos, em virtude de uma subordinação à cultura, ao intelecto ou ao ego —dela própria ou de outros. A Mulher Selvagem é a saúde para todas as mulheres. Sem ela, a psicologia feminina não faz sentido. Essa mulher não-domesticada é o protótipo de mulher... não importa a cultura, a época, a política, ela é sempre a mesma. Seus ciclos mudam, suas representações simbólicas mudam, mas na sua essência ela não muda. Ela é o que é; e é um ser inteiro. Ela abre canais através das mulheres. Se elas estiverem reprimidas, ela luta para erguê-las. Se elas forem livres, ela é livre. Felizmente, por mais que seja humilhada, ela sempre volta à posição natural. Por mais que seja proibida, silenciada, podada, enfraquecida, torturada, rotulada de perigosa, louca e de outros depreciativos, ela volta à superfície nas mulheres, de tal forma que mesmo a mulher mais tranquila, mais contida, guarda um canto secreto para a Mulher Selvagem. Mesmo a mulher mais reprimida tem uma vida secreta, com pensamentos e sentimentos ocultos que são exuberantes e selvagens, ou seja, naturais. Mesmo a mulher presa com a máxima segurança reserva um lugar para o seu self selvagem,pois ela intuitivamente sabe que um dia haverá uma saída, uma abertura, uma oportunidade, e ela poderá escapar.

Nota:
 A linguagem dos contos e da poesia é a irmã vigorosa da linguagem dos sonhos. A partir da análise de muitos sonhos (tanto contemporâneos quanto antigos obtidos de relatos escritos) ao longo de anos, bem como de textos sagrados e da obra de místicos como Catarina de Siena, Francisco de Assis, Rumi e Eckhart, e da obra de muitos poetas como Dickinson, Miliay, Whitman, entre outros, parece haver dentro da psique uma função que cria arte e poesia e que brota quando a pessoa espontânea ou propositadamente ousa se aproximar do núcleo instintivo da psique. Esse local na psique, onde se reúnem os sonhos, as histórias, a poesia e a arte, constitui o misterioso habitat da natureza selvagem ou instintiva. Na poesia e nos sonhos contemporâneos, bem como nos contos folclóricos mais antigos e nos escritos dos místicos, todo o ambiente desse núcleo é compreendido como um ser de vida autônoma. Na maioria das vezes, ele é representado na poesia, na pintura, na dança e nos sonhos como um dos grandes elementos, como por exemplo o oceano, a abóbada celeste, a terra preta ou como um poder personalizado, como a Rainha dos Céus, A Corça Branca, A Amiga, A Amada, O Amante ou O Parceiro. A partir desse núcleo, ideias e questões de importância numinosa assomam à pessoa, que vivência a sensação de "estar plena de algo diferente do eu". Da mesma forma, muitos artistas levam suas próprias ideias e questões nascidas do ego até a borda do núcleo, deixando-as cair ali dentro, com a justificada impressão de que elas voltarão infundidas de algo novo ou impregnadas do notável sentido da vida psíquica desse núcleo. Seja como for, isso provoca um repentino e profundo despertar,uma mudança ou uma formulação dos sentidos, da disposição ou do coração do ser humano. Quando a pessoa acaba de ser informada, sua disposição muda. Quando a disposição muda, o coração muda. É por isso que as imagens e a linguagem que sobem do núcleo são tão importantes. Combinadas, elas têm o poder de transformar qualquer coisa em outra, de uma forma que seria difícil e tortuosa se apenas contasse com a ajuda da vontade. Nesse sentido, o Self central, o Self instintual, tanto cura quanto dá início à vida.

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Leia a terceira parte aqui.



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