18/07/2016

[A Mulher Selvagem] Cantando sobre os ossos #1.


"Todas nós temos anseio pelo que é selvagem.
Existem poucos antídotos aceitos por nossa cultura para esse desejo ardente.
Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração.
Deixamos crescer o cabelo e o usamos para esconder nossos sentimentos.
No entanto, o espectro da Mulher Selvagem ainda nos espreita de dia e de noite.
Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas." 
(CLARISSA PINKOLA ESTÉS, Ph.D. Cheyenne Wyoming)

Nova série de posts dividida em 6 partes (cantando sobre os ossos), sobre o arquétipo da mulher selvagem, do livro "Mulheres que correm com os lobos, mitos e histórias do arquétipo da Mulher Selvagem", escrito pela psicóloga e contadora de histórias Clarissa Pinkola Estés.


  Cantando sobre os ossos 

A fauna silvestre e a Mulher Selvagem são espécies em risco de extinção. Observamos, ao longo dos séculos, a pilhagem, a redução do espaço e o esmagamento da natureza instintiva feminina. Durante longos períodos, ela foi mal gerida, à semelhança da fauna silvestre e das florestas virgens. Há alguns milênios, sempre que lhe viramos as costas, ela é relegada às regiões mais pobres da psique. As terras espirituais da Mulher Selvagem, durante o curso da história, foram saqueadas ou queimadas, com seus refúgios destruídos e seus ciclos naturais transformados à força em ritmos artificiais para agradar os outros. Não é por acaso que as regiões agrestes e ainda intocadas do nosso planeta desaparecem à medida que fenece a compreensão da nossa própria natureza selvagem mais íntima. Não é tão difícil compreender por que as velhas florestas e as mulheres velhas não são consideradas reservas de grande importância. Não há tanto mistério nisso. Não é coincidência que os lobos e coiotes, os ursos e as mulheres rebeldes tenham reputações semelhantes. Todos eles compartilham arquétipos instintivos que se relacionam entre si e, por isso, têm a reputação equivocada de serem cruéis, inatamente perigosos, além de vorazes.Minha vida e meu trabalho como analista junguiana e cantadora, contadora de histórias, me ensinaram que a vitalidade esvaída das mulheres pode ser restaurada por meio de extensas escavações "psíquico-arqueológicas" nas ruínas do mundo subterrâneo feminino. Com esses métodos, podemos recuperar os processos da psique instintiva natural; e, através da sua incorporação ao arquétipo da Mulher Selvagem, conseguimos discernir os recursos da natureza mais profunda da mulher. A mulher moderna é um borrão de atividade. Ela sofre pressões no sentido de ser tudo para todos. A velha sabedoria há muito não se manifesta. O título deste livro, Mulheres que correm com os lobos, mitos e histórias do arquétipo da Mulher Selvagem, foi inspirado em meu estudo sobre a biologia de animais selvagens, em especial os lobos. Os estudos dos lobos Canis lupus e Canis rufus são como a história das mulheres, no que diz respeito à sua vivacidade e à sua labuta. Os lobos saudáveis e as mulheres saudáveis têm certas características psíquicas em comum: percepção aguçada, espírito brincalhão e uma elevada capacidade para a devoção. Os lobos e as mulheres são gregários por natureza, curiosos, dotados de grande resistência e força. São profundamente intuitivos e têm grande preocupação para com seus filhotes, seu parceiro e sua matilha. Tem experiência em se adaptar a circunstâncias em constante mutação. Têm uma determinação feroz e extrema coragem. No entanto, as duas espécies foram perseguidas e acossadas, sendo-lhes falsamente atribuído o fato de serem trapaceiros e vorazes, excessivamente agressivos e de terem menor valor do que seus detratores. Foram alvo daqueles que prefeririam arrasar as matas virgens bem como os arredores selvagens da psique, erradicando o que fosse instintivo, sem deixar que dele restasse nenhum sinal. A atividade predatória contra os lobos e contra as mulheres por parte daqueles que não os compreendem é de uma semelhança surpreendente. Pois foi aí que o conceito do arquétipo da Mulher Selvagem primeiro se concretizou para mim: no estudo dos lobos. Estudei também outras criaturas como, por exemplo, os ursos, os elefantes e os pássaros da alma — as borboletas.




As características de cada espécie fornecem indicações abundantes do que pode ser conhecido sobre a psique instintiva da mulher. A Mulher Selvagem passou pelo meu espírito duas vezes: a primeira, pelo fato de haver nascido de uma linhagem hispano-mexicana tipicamente passional, e a segunda, por ter sido adotada por uma família de húngaros impetuosos. Cresci próximo à fronteira dos estados de Michigan e Indiana, cercada de bosques, pomares e campos e perto dos Grandes Lagos. Ali, os trovões e os relâmpagos eram meu principal alimento. Os milharais estalavam e falavam alto à noite. Mais ao norte, os lobos vinham até as clareiras ao luar, para pular e uivar. Todos podíamos beber dos mesmos regatos sem medo. Embora eu não a chamasse por esse nome na época, meu amor pela Mulher Selvagem começou quando eu era pequena. Eu era uma esteta, não uma atleta, e meu único desejo era o de perambular em êxtase. A mesas e cadeiras, eu preferia o chão, as árvores e as cavernas, porque nesses lugares eu sentia como se pudesse me encostar no rosto de Deus. O rio sempre queria ser visitado depois que escurecesse; os campos precisavam de alguém que neles caminhasse para que pudessem farfalhar conversando. As fogueiras precisavam ser feitas na floresta à noite; e as histórias precisavam ser contadas onde os adultos não pudessem ouvir. Tive a sorte de crescer na natureza. Lá, os raios me falaram da morte repentina e da evanescência da vida. As ninhadas de camundongos revelavam que a morte era amenizada pela nova vida. Ao desenterrar "contas de índios", trilobites da terra preta, eu compreendia que os seres humanos estão por aqui há muito, muito tempo. Tive aulas sobre a sagrada arte da autodecoração com borboletas pousadas no alto da minha cabeça, vaga-lumes servindo de jóias durante as noites e rãs verde-esmeralda como pulseiras.
Uma loba matou um de seus filhotes que estava mortalmente ferido. Para mim foi como uma dura lição sobre a compaixão e a necessidade de permitir que a morte venha aos que estão morrendo. As lagartas cabeludas que caíam dos seus galhos e voltavam a subir, arrastando-se, me ensinaram a determinação. As cócegas do seu caminhar no meu braço me revelaram como a pele pode ter vida própria. Subir ao alto das árvores me mostrou como seria o sexo um dia. Minha própria geração, posterior à Segunda Guerra Mundial, cresceu numa época em que as mulheres eram infantilizadas e tratadas como propriedade. Elas eram mantidas como jardins sem cultivo... mas felizmente sempre chegava alguma semente trazida pelo vento. Embora o que escrevessem fosse desautorizado, elas insistiam assim mesmo. Embora o que pintassem não recebesse reconhecimento,nutria a alma do mesmo jeito. As mulheres tinham de implorar pelos instrumentos e pelo espaço necessários às suas artes; e, se nenhum se apresentasse, elas abriam espaço em árvores, cavernas, bosques e armários. A dança mal conseguia ser tolerada, se é que o era, e por isso elas dançavam na floresta, onde ninguém podia vê-las, no porão ou no caminho para esvaziar a lata de lixo. A mulher que se enfeitava despertava suspeitas. Um traje ou o próprio corpo alegre aumentava o risco de ela ser agredida ou de sofrer violência sexual. Não se podia dizer que lhe pertenciam as roupas que cobriam os seus próprios ombros. Era uma época em que os pais que maltratavam seus filhos eram simplesmente chamados de."severos", em que as lacerações espirituais de mulheres profundamente exploradas eram denominadas "colapsos nervosos", em que as meninas e as mulheres que vivessem apertadas em cintas, amordaçadas e contidas, eram consideradas "certas", enquanto aquelas que conseguiam fugir da coleira uma ou duas vezes na vida eram classificadas de "erradas".

(arte de missusruin)

Por isso, igual a muitas mulheres antes e depois de mim, passei minha vida como uma criatura disfarçada. A semelhança da parentela que me precedeu, andei cambaleante em saltos altos e fui à igreja usando vestido e chapéu. No entanto, minha cauda fabulosa muitas vezes aparecia por baixo da bainha do vestido, e minhas orelhas se contorciam até meu chapéu sair do lugar, no mínimo cobrindo meus olhos e às vezes indo parar do outro lado da nave. Não me esqueci da canção daqueles anos sombrios, hambre del alma, a canção da alma faminta; mas também não me esqueci do alegre canto hondo, o canto profundo, cuja letra volta à nossa mente quando nos dedicamos à regeneração do espírito. Como uma trilha que atravessa a floresta e vai cada vez diminuindo mais até quando parece se reduzir a nada, a teoria psicológica tradicional esgota-se rápido demais para a mulher criativa, talentosa, profunda. A psicologia tradicional é muitas vezes lacônica ou totalmente omissa quanto a questões mais profundas importantes para as mulheres: o aspecto arquetípico, o intuitivo, o sexual e o cíclico, as idades das mulheres, o jeito de ser mulher, a sabedoria da mulher, seu fogo criador. Foi isso o que direcionou meu trabalho sobre o arquétipo da Mulher Selvagem durante quase duas décadas. As questões da alma feminina não podem ser tratadas tentando-se esculpi-la de uma forma mais adequada a uma cultura inconsciente, nem é possível dobrá-la até que tenha um formato intelectual mais aceitável para aqueles que alegam ser os únicos detentores do consciente. Não. Foi isso o que já provocou a transformação de milhões de mulheres, que começaram como forças poderosas e naturais, em párias na sua própria cultura. Na verdade, a meta deve ser a recuperação e o resgate da bela forma psíquica natural da mulher. Os contos de fadas, os mitos e as histórias proporcionam uma compreensão que aguça nosso olhar para que possamos escolher o caminho deixado pela natureza selvagem. As instruções encontradas nas histórias nos confirmam que o caminho não terminou, mas que ele ainda conduz as mulheres mais longe, e ainda mais longe, na direção do seu próprio conhecimento. As trilhas que todas estamos seguindo são aquelas do arquétipo da Mulher Selvagem, o Self instintivo inato. Chamo-a de Mulher Selvagem porque essas exalas palavras, mulher e selvagem, criam llamar o tocar a Ia puerta, a batida dos contos de fadas à porta da psique profunda da mulher. Llamar o tocar a Ia puerta significa literalmente tocar o instrumento do nome para abrir uma porta. Significa usar palavras para obter a abertura de uma passagem. Não importa a cultura pela qual a mulher seja influenciada, ela compreende as palavras mulher e selvagem intuitivamente. Quando as mulheres ouvem essas palavras, uma lembrança muito antiga é acionada, voltando a ter vida. Trata-se da lembrança do nosso parentesco absoluto, inegável e irrevogável com o feminino selvagem, um relacionamento que pode ter se tornado espectral pela negligência, que pode ter sido soterrado pelo excesso de domesticação, proscrito pela cultura que nos cerca ou simplesmente não ser mais compreendido. Podemos ter-nos esquecido do seu nome, podemos não atender quando ela chama o nosso; mas na nossa medula nós a conhecemos e sentimos sua falta. Sabemos que ela nos pertence; bem como nós a ela. Foi dentro desse relacionamento essencial, fundamental e básico que nascemos e na nossa essência é dele que derivamos.


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Leia a segunda parte aqui.



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